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sexta-feira, 3 de junho de 2016

Relatos de uma mulher comum

Acordo todos os dias às 5h da manhã, embarco no transcolino das 6h e obviamente minha cara não é das melhores, pois nessa minha vida sou 1% eu e 99% sono. Hoje, especificamente, estava de calça jeans e blusa de frio, ou seja, nada sexy.

E qual é a saga de todo dia? Conseguir ir sentada! E não é que consegui?! Pois bem....ao chegar no terminal de VV, muitos passageiros desceram e praticamente ninguém embarcou. Eu continuei no meu lugarzinho, quietinha, na janela, afinal... pq iria mudar de lugar? O ônibus articulado estava praticamente vazio.

Então, um rapaz até bem apessoado e com visual de funkeiro, senta-se do meu lado. Oras, se o ônibus estava vazio, pra que sentar do meu lado? Roubar, paquerar, assediar...?

Eu fiquei aflita, mas quieta, orando para o cara sair. O cara então me pergunta se o ônibus passava na Glória. Eu disse que sim rispidamente. Aí ele perguntou se passava no hospital infantil. Eu disse que não, mas era próximo.  E a próxima pergunta foi se eu tinha Whatsapp. Eu disse NÃO! Pensei meio aliviada: era uma paquera, agora ele vai sair pq já percebeu que não estou interessada.

Mas não era... O cara segurou o órgão genital por cima da roupa mesmo. Eu pensei: se eu gritar, podem não acreditar em mim já que sempre duvidam das mulheres; se eu levantar, ele pode passar a mão em mim, já que estou na janela e precisaria passar por ele; o que fazer?

Então o rapaz abriu um vídeo pornográfico no celular, perguntou se eu gostava e continuou a segurar o órgão genital. Eu levantei imediatamente, pedindo licença ainda e jogando a bolsa pra cima dele. Sentei-me mais a frente e não sei efetivamente em que ponto o cara desceu. Só sei que na Glória ele já não estava no ônibus.

Refleti muito se ia escrever isso no facebook. Essa não foi a primeira vez que algo do tipo aconteceu. Resolvi contar para abrir a mente de alguns homens que pensam que só a menininha funkeira e “dada” é assediada. Pois então, eu não estava de shortinho, com decote e nem indo ao baile de madrugada. Alô macharada! Eu estava indo trabalhar mal arrumada, diga-se de passagem. Se daquele jeito eu provoco alguém, arrumada então eu causo o que hein ?!

“Homens de bem”, não existe isso de provocar: tarado ataca qualquer uma! Poderia ser sua namorada /esposa / irmã... Não, vcs não entendem a cabeça dos tarados! Somos nós que entendemos o que é ser mulher nessa sociedade onde tarado não tem cara e nem lugar pra atacar. Pode ser qualquer um, uniformizado ou não, jovem ou velho, feio ou bonito.

E não me venham falar que é fácil: só gritar. Não é! Se o cara falar que vc é doida, que ele não estava fazendo nada, a maioria olha pra mulher com cara de “ela deu mole para o cara e agora jogou essa”, “ela provocou o cara”, “essa não presta”. Nós mulheres, somos obrigadas a passar por isso e se conseguirmos nos desvencilhar, fingirmos que nada aconteceu.


Não sou do movimento feminista, mas sei que o machismo atual é igual ao racismo: branco tem mania de achar que não existe, homem tb tem essa mania. E o Chapolim Colorado não aparece pra nos defender...