Hoje transcrevo uma crônica de
Maria Sanz Martins:
No princípio eram os verbos. Conjugavam:
iam (à praia), conversavam (sobre tudo e sobre nada), rachavam (a conta),
ficavam (de porre) e dividiam (angustias e lamurias sobre seus respectivos
namorados).
Eram amigos desde o tempo da
escola, quando faziam absolutamente tudo juntos, inclusive (de modos escusos),
as provas. Moravam na mesma rua; pegavam o mesmo ônibus para Manguinhos em
busca das ondas; disputavam a mesma calçada na corrida de bicicleta; e quando
aprontavam alguma, combinavam as mesma mentiras para escapar das broncas.
Ela, mais egoísta; ele, mais
generoso. Ela, engraçada, bonita; ele, nem bonito, nem feio; charmoso. Eram parceiros
perfeitos.
Se no fim da festa, ela fosse
embora de carona com outro garoto, ele a esperava na porta de casa e só ia
dormir depois de vê-la entrar, sã e salva.
Se ele ficasse de paquera com
outra garota do colégio, ela não sossegava enquanto não descobrisse nela algum
traço condenável ou maléfico.
Se ela cortasse o cabelo, corria
para casa dele para perguntar, chorosa, o veredicto (bonito ou feio?).
Se ele perdesse o campeonato e
voltasse para casa sem medalha, era ela quem o consolava (as vezes, com um
banho de mangueira e uma farra; noutras, com uma caixa de “língua de gato” e um
abraço apertado).
Se ela tivesse o coração partido,
ele emprestava o ombro e os ouvidos.
Mas, quando era ele quem tomava
um fora, ela nem disfarçava o sorriso.
Nota: como se sabe, sentimentos
costumam ser complexos e inexoráveis.
Um belo dia, ele conheceu uma
garota especial, doce, meiga e o pior, superlegal. O namoro engatou e,
diferente das outras vezes, ele decidiu apresentá-la à família e, claro, à
melhor amiga. Foi no dia do seu aniversário. Depois da festa, ele foi deixar a
namorada em casa e na volta, encontrou a velha amiga roendo as unhas, sentada
na calçada.
Já era madrugada. Ele saiu do
carro, bateu a porta e, como de costume, enfiou as mãos nos bolsos da calça:
- “O que vc tá fazendo aí sozinha
menina?”
Pronto, aquela foi a deixa para
uma cena memorável. De repente, viu a amiga tendo um surto. Ela se rasgou em ciúme,
esbravejou, chorou, fugiu do abraço e confessou que aquele sentimento não era
nenhuma novidade. Ele, claro, a apertou contra o peito e riu o riso dos
aliviados.
Beijaram-se até a noite virar o
dia. Depois, namoraram, noivaram e se casaram.
Foram felizes; felizes e
infelizes. Compraram um apartamento, e como todo casal, experimentaram os
sabores e dissabores, dos altos e baixos.
Aconteceu que, num desses baixos,
ela se apaixonou por outro. (Mas eu não disse que sentimentos são
complicados?). Pois é. E, como antes de serem cônjuges, eram melhores amigos,
fizeram uma separação amigável. Ou, quase.
Também aquele fim teve seu lado
trágico. “Lamentável”, - amigos comentavam- “aqueles dois não se amaram mais
por falta de espaço...” Literalmente. De tanto querer-ficar-junto, por
garantia, trocaram um amor de rua (de praia, de quintal, de pátio) por um
compromisso, num conjugado.
Qualquer um podia ver que desde
sempre os dois foram apaixonados. Apaixonados pelo jeito de ser esparramado;
pela espontaneidade; pela liberdade de convivência perfumada; pelo frescor dos
encontros sem cobranças; pelo ciúme velado: pela admiração sem tamanho, pela
diversão, pela verdade, pela ausência de rótulos ou, senão, pelo colorido da
amizade.
Agora acabou. Talvez tenham razão
os que dizem que o amor não sabe ser domesticado...
De vez em quando ela telefona,
pergunta como vai a vida, puxa papo e, no fim, indaga o que no passado jamais
precisou ser perguntado: - “amigos?”.
Ele ri, desconversa e desliga
apressado.
Procura evitá-la.
À realidade, prefere os retratos
amarelados que remontam aquela vizinha linda, namoradeira, engraçada e que de tão
cheia de vida não coube em seus braços.
Pois então... ao reler essa crônica,
pude refletir: sinto uma afinidade com a personagem (embora não tenha casado
com nenhum amigo e nem fui eu que me apaixonei por outra pessoa... hehe).
O meu amigo me dizia que eu era
bobinha, inocente, via bondade demais nas pessoas, queria sempre defendê-las
das acusações....rsrs
Se isso é defeito, quero
continuar defeituosa....rsrs... quero continuar a ver o mundo dessa maneira e
assim ver certos atos que me atingiram (inclusive os desse meu amigo) com
compreensão e bondade. =)
Infelizmente, tb preciso
perguntar “amigos?” pq nem eu saberia responder se fosse perguntada... talvez um dia eu pergunte, talvez um dia me
perguntem... espero que a resposta dos dois corações seja sim, sem mágoas e com
sinceridade.
Deixo pra vcs a música q meu
amigo me mostrou, pq NEM tudo acabou.... a recordação fica!
“O que você tem neném
Conte logo para mim
Não quero ver você
Viver tão triste assim
Sou mais que um amigo
Sonhe e venha comigo
Esqueça o que passou
Vamos viver o presente
Tire da sua mente que tudo entre
nós se acabou
Que tudo entre nós se acabou....”
